Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009
publicado por Carlos Botelho em 26 Ago 2009, às 02:05

 

Agora que o Presidente da República promulgou o diploma relativo ao alargamento da escolaridade obrigatória para doze anos, não há que embandeirar em arco. (Deixo de lado a questão da Lei de Bases do Sistema Educativo estipular apenas nove anos.)

Bem sei que não se pode falar em "facilitismo": há almas sensíveis que de imediato estrebucham em aflição pedagógica, se ouvirem um sussurro sequer. Também não gosto da palavra, mas detesto bem mais os vícios que ela designa. Antes de rasgarem as vestes, deviam notar esta coisa: os que mais denunciam o problema são precisamente aqueles que com ele se debatem todos os dias, os docentes - e os que, em geral, vêm logo a correr, de dedinho apontado à denúncia e gritando hipocritamente para os lados 'Escândalo!', são meia dúzia de burocratas iluminados, com uma visão meramente laboratorial da Escola e com um discurso sedutor para o público mal informado.

 

A obrigatoriedade do ensino nos primeiros nove anos alisou o caminho para que, nuns casos insensivelmente, noutros, com brusquidão, se fossem instalando no sistema escolar uma série de mecanismos administrativos e de dispositivos de avaliação nas próprias disciplinas (para não falar dos seus programas curriculares...), que têm tido como objectivo a lubrificação das passagens (transições) de ano. Um dos efeitos perversos disto (para lá da sua perversão "essencial") é o choque que a maioria dos alunos que ingressam no 10ºAno sofrem ao começarem o seu ensino secundário. Isto é, todos os vícios adocicantes dos nove anos obrigatórios, não só abandonam com qualificação duvidosa os que ficarem pelos nove anos, como deixam impreparados os alunos que pretendam prosseguir. Com legiões de alunos crescentemente impreparados (sem treino de hábitos de estudo e de trabalho - que não lhes foi sendo exigido durante nove(!) anos - e muito deficientes nas próprias "competências" consideradas "essenciais" e fixadas formalmente pelo próprio sistema) a desaguarem cada ano no início do secundário, o que acontece? Como seria de esperar, os "critérios de exigência" vão-se degradando de modo informal, ao mesmo tempo que os responsáveis políticos vão, indirecta ou directamente (por mil e uma iniciativas administrativas), induzindo na Escola secundária essa mesma degradação - para a qual haverá sempre pretextos "ideológicos" à la carte. Este governo Sócrates tem sido useiro e vezeiro nessas práticas e recolhe agora, festivo, os frutos disso. Infelizmente, os frutos apregoados com descaramento perverso, revelar-se-ão azedos, senão podres, a gerações de jovens sistematicamente enganados ao longo dos anos mais importantes da sua formação.

 

Até aqui, tem sido menos difícil aos professores do ensino secundário resistirem àquele abastardamento da sua profissão do que aos do básico. Estes encontram-se mais condicionados (para não dizer "pressionados" ou até política e "ideologicamente" chantageados). Apesar de todas as degradações, já por si destrutivas, tem sido possível manter um grau de exigência/qualidade no secundário relativamente decente se comparado, não com o que deveria ser, mas com o que é de facto o do básico. (E os alunos, vítimas inocentes da perversão, ressentem-se do salto qualitativo.)

A partir da execução da alteração ontem consagrada, se não se estiver atento e se não se forem invertendo políticas de anos, pode acontecer que se dê, não apenas um alargamento da escolaridade obrigatória, mas também uma tendencial uniformização daqueles que, no presente, são dois graus diferenciados de ensino. Isto é, existe o risco fortíssimo de se dar um alastramento dos vícios que vitimam o actual ensino básico até aos restantes três anos - deixaria, pura e simplesmente, de existir a cesura entre os dois momentos.


3 comentários:
De john a 26 de Agosto de 2009 às 11:59
Tem muita razão no que diz. Se pensar hoje, tantos anos depois, na minha turma do décimo ano, reparo que vários colegas não concluíram o ensino Secundário, e que talvez apenas metade tenha concluído o décimo-segundo ano em três anos. O choque do básico para o Secundário é considerável. Mas não creio que seja maior do que o choque que se dá entre o Secundário e a Universidade.

Esta medida vai eliminar o fosso entre o Básico e o Secundário, alargado aquele que existe entre o Secundário e a Universidade. Eventualmente, o ensino superior será ainda mais facilitado também. Enfim, a única coisa que quero é, quando chegar à altura de "constituir família", estar bem longe daqui.


De Paulo a 26 de Agosto de 2009 às 14:17


De J. Stanford a 26 de Agosto de 2009 às 23:29
Esta medida é mais uma das muitas alteraçoes idiotas e negativas que este governo fez na Educação.
Lembro-me perfeitamente de no meu 10º ano o meu director de turma nos dizer que "só esta aqui quem quer, quem nao quer pode ir embora, isto já não é escolaridade obrigatória".
Com esta medida passamos da política do está aqui quem quer" para a " estou aqui porque sou obrigado"
Existe um fosso enorme entre o Ensino Básico e Secundário. Um aluno faz o 9º ano com 2 negativas, no Secundário n se passa com nenhuma. Será que vamos começar a ver alunos a entrar para o Ensino Superior com disciplinas por fazer como Matemática e Fisico-Quimica A? A entrada de alunos para a Universidade sem as bases que só um bom Secundário pode proporcionar?
Penso que nao tardará muito.
O Ensino Básico tem disciplinas que supostamente ajudam o aluno a formar-se enquanto cidadao, a criar hábitos de estudo, mas sem um programa específico o que pode fazer? Os alunos sao facilitados no Básico e agora querem fazer o mesmo no Secundário. Facilitismo em troca de mentiras cor-de-rosa, estatisticas falsas. afinal, socrates e um bom mentiroso, nisso à que lhe tirar o chapéu.
A uniformizaçao dos dois ensinos nunca sera total, sao muito diferentes. Nao sera esta tambem mais uma medida de controlo aos professores?
Estamos a caminho de um futuro com pessoas cada vez mais ignorantes? E depois é assim que querem que o país evolua...



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