Domingo, 30 de Agosto de 2009
publicado por Carlos Botelho em 30 Ago 2009, às 14:44

 

Querem comover-se? Ouçam isto. A "liberdade", a "tolerância", a "modernidade", o "progresso", o "futuro" e tal. Assim, todas as virtudes em cascata. Uma maravilha. Ouve-se isto e não há ultramontano mais empedernido que resista. É só misturar água e sai logo um campeão dos direitos. Ele até parece isso, não é?

E aquele toque final do "mar", do "luar", do "não parar" (porque não disse o verbo em que pensava: "votar"?) dá bem a medida da pirosice de que é capaz. Tem-se troçado de Carolina Patrocínio, mas ela é bem mais autêntica do que o secretário-geral do PS. Num sentido, Sócrates não é falso, porque um mascarado tem uma cara por detrás da máscara que procura esconder a todo o custo. Mas a máscara de Sócrates é, por assim dizer, "sincera", porque não tem nada por detrás. A aparência sempre tão frenética do primeiro-ministro procura mascarar precisamente o seu vazio. Ele está permanentemente a fingir que é alguma coisa. Não sei se Sócrates sabe quem é. Não sei se alguma vez tira a máscara diante do espelho e espreita para o vácuo diante de si. Talvez nem dê por isso.

Ele é apenas aquilo: frases ocas em gritaria esbracejada - sem pingo de consistência. Tanto pode ser uma coisa agora como o seu oposto daqui a dias. Mas sempre, sempre sob os holofotes, com tribunazinhas, figurantes solícitos e produzindo em catadupa anúncios e proclamações disto e daquilo. A realidade fica sempre lá fora, atrás dos cenários portáteis. Ele não a suporta - não só porque lhe estraga a permanente encenação, mas também porque não lhe cabe na sua "mundivisão" (para usar uma palavra que agora descobriu e não se cansa de repetir). Como se pode querer este homem para primeiro-ministro de um país?...

 

 

Todas aquelas proclamações de ontem têm um destinatário claro: o eleitorado (potencial) do Bloco de Esquerda e uma vaga "mentalidade aberta" que se comoveria com aquelas fantasias. Sócrates já tinha conseguido um candidato a deputado, que não se importa de se sujeitar ao papel de troféu de caça, para isco dos votos daquela esquerda. Mas convém sempre reforçar a nota "progressista" em comícios, não vá o "povo" esquecer o "profundo pensamento de esquerda" do secretário-geral.

Contudo, duvido que os votantes do Bloco sejam parvos. Eles sabem bem que a personagem que agora apregoa aos sete ventos a "liberdade" e toda a "tolerância" foi a mesma que os deixou de mãos a abanar com o "casamento do mesmo sexo", apenas esse "princípio" deixou de lhe dar jeito. É a mesma personagem que foi, sim, muitíssimo tolerante com as inúmeras manifestações de autoritarismo que foram pondo a cabecinha de fora pelo país: o caso do prof. Charrua, a exoneração da directora do Centro de Saúde de Vieira do Minho, a intromissão intimidatória da polícia em actividades sindicais, processos a manifestantes, como aconteceu em Guimarães, as intimidações nas escolas que recusassem a "avaliação" docente, etc. É a mesma personagem que processou vários jornalistas por pretensas "difamações" e fez uso de um discurso intimidatório para orgãos de comunicação social. É a mesma personagem que aceitou e premiou a linguagem insultuosa e espantosamente agressiva de ministros em relação a todas as oposições, a críticas internas, a sindicatos, a simples protestos populares. É a mesma personagem que, diante de cada manifestação desmancha-prazeres, arremessava monotonamente a acusação dos "insultos" e da "maledicência". É o primeiro-ministro que se rodeia de seguranças ajagunçados que abalroam repórteres inoportunos. É o mesmo que, no parlamento, troçava dos deputados nas suas barbas ou usava de um tom acintoso de valentão de feira para com eles: ridicularizava com trejeitos e momices Santana Lopes, Jerónimo de Sousa e Paulo Portas, nos momentos em que o interpelavam; espetava o seu dedo já ridículo para Louçã e repreendia 'Tenha tento na língua!', berrava para Paulo Rangel 'Não seja ridículo!', julgando-se, certamente, tratando com assessores-serviçais de Magalhães sobraçados e não com deputados eleitos. É esta espalhafatosa criatura que agora nos vem acenar com "princípios", com "liberdade" e com "tolerância".

 


2 comentários:
De Zé dos Montes a 30 de Agosto de 2009 às 18:21
Vê-se mesmo que não percebem nada da esquerda moderna (a da "liberdade respeitosa" e da "humildade democrática"). A "mundivisão" é a versão socretina da "... a cooperação geoestratégica institucional..." de Soares. Bem, o Soares não é muito dado a essas modernices no socialismo, para ele a "..."terceira via", uma verdadeira fraude intelectual..." http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=1344047&seccao=M%E1rio%20Soares&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco


De José Barros a 31 de Agosto de 2009 às 02:28
Excelente texto.


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Jamais - Advérbio. Nunca mais, outra vez não, epá eles querem voltar. Interjeição muito usada por um povo de dez milhões de habitantes de um certo cantinho europeu, orgulhoso do passado mas apreensivo com o futuro, hospitaleiro mas sem paciência para ser enganado, solidário mas sobrecarregado de impostos, com vontade de trabalhar e meio milhão de desempregados, empreendedor apesar do Estado que lhe leva metade da riqueza, face à perspectiva terrível de mais quatro anos de desgoverno socialista. Pronuncia-se à francesa, acompanhado ou não do vernáculo manguito.
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