Sábado, 12 de Setembro de 2009
publicado por Rodrigo Adão da Fonseca em 12 Set 2009, às 01:09

Não há nenhuma democracia ocidental desenvolvida onde a extrema-esquerda represente 25% dos votos.  Uma fatia importante do eleitorado cristalizou nos "amanhãs que cantam", ou seus derivados, e nas doutrinas políticas que se projectam no medo, no ressentimento, e na exploração da inveja. Se a estes 25%, somarmos o peso do PS, concluímos que dificilmente Portugal poderá ter, à esquerda, condições de governabilidade. Infelizmente, o próprio discurso político do PSD e do CDS é, vezes demais, envergonhado, com receio de assumir frontalmente uma separação de águas face ao socialismo atávico que nos vende a esquerda portuguesa (veja-se, a título de exemplo, a triste figura de Paulo Portas hoje no debate com Louçã, demarcando-se vergonhosamente de uma posição da Juventude Popular em relação ao salário mínimo).

 

Há por isso, ainda, um longo caminho a percorrer para que em Portugal possamos encontrar no mainstream ideias amenas para o investimento, o gosto pelo risco, o empreendedorismo, no fundo, ideias assentes na liberdade que serve as pessoas, e não as esvazia.

 

(continua)


6 comentários:
De António Dias a 12 de Setembro de 2009 às 09:46
Ao ler este “post” coloca-se-me uma questão central: Será o seu autor simpatizante ou militante do PSD?

Se a resposta a esta questão for afirmativa, atendendo ao significado implícito a esta sigla (Partido Social Democrata), “das duas uma”: ou o autor do “post” se enganou no partido com que simpatiza/em que milita, ou o partido deveria mudar de nome, e passar a chamar-se Partido Liberal ou algo semelhante/aproximado.

Seria suposto que:

a) o PCP defende-se o comunismo;
b) o PS o socialismo democrático;
c) o PSD a social democracia e;
d) o CDS a democracia cristã e/ou o neo-liberalismo e/ou o populismo de direita.

Chamo desde logo a atenção para o facto de que um socialista democrático, ou um social democrata, confia significativamente menos nas virtualidades do mercado do que um democrata cristão ou um neo liberal.

No entanto o que temos (fenómeno este que se tem vindo a acentuar nos últimos anos):

a) o PCP coerentemente defende o comunismo;
b) o PS derivou para a direita e tem vindo a defender/prosseguir uma forma relativamente “benigna” de neo liberalimo;
c) o PSD, para se demarcar do PS, tem derivado para um neo-liberalismo mais acentuado e para o populismo de direita e;
d) o CDS tem-se procurado diferenciar, fundamentalmente, pela via do populismo.

A questão que se coloca é pois a de que à deriva para a direita dos partidos políticos tradicionalmente mais representativos da nossa democracia, não correspondeu (de modo algum) um movimento semelhante por parte do eleitorado: o PS ao deixar vago o espaço do socialismo democrático, acabou por permitir o surgimento e o crescimento do BE. O autor tem pois razão quando afirma que “Portugal cristalizou”.

Assim, face a este desfasamento crescente entre o que é defendido pelos principais partidos e aquilo que é pretendido pelo eleitorado (pelo “eleitor mediano”), não admira que “o próprio discurso político do PSD e do CDS seja, vezes demais, envergonhado, com receio de assumir frontalmente uma separação de águas face ao socialismo atávico que nos vende a esquerda portuguesa”.

Penso no entanto que o autor não tem razão quando afirma que “Portugal cristalizou nos amanhãs que cantam, ou seus derivados, e nas doutrinas políticas que se projectam no medo, no ressentimento, e na exploração da inveja.”. Se o eleitorado pretendesse um regime comunista, teria optado pelo mesmo logo após o 25 de Abril. O que o eleitorado não quer é um regime neo liberal. Em síntese o que o eleitorado pretende é um socialismo democrático/uma social democracia, o que nenhum dos principais partidos aparenta estar disposto a lhe proporcionar.

Quem estará “errado”? O “eleitor mediano” ou as elites partidárias?

De acordo com o autor deste “post” é o eleitorado.

Na minha opinião são as elites partidárias.



De António Dias a 12 de Setembro de 2009 às 10:00
No meu comentário anterior defendi que o desfazamento político existente entre aquilo que é pretendido pelas elites partidárias e aquilo que é desejado pelo eleitorado, não é o resultado de uma “apreciação errada" da realidade por parte deste último, mas sim das primeiras.

Gostaria por isso de fundamentar esta minha opinião.

A este propósito julgo adequado chamar a atenção para dois conjuntos de aspectos.

O primeiro conjunto prende-se com o triunfo do liberalismo ocorrido após a queda do muro de Berlim, paralelamente à crescente internacionalização das economias (numa base, também ela, liberal).

Quem estudou história económica sabe bem que o capitalismo não regulado/descontrolado se traduz, inevitavelmente, em crises cíclicas. Assim aconteceu até à grande depressão de 1929. Neste contexto pretendo apenas chamar a atenção para o facto de que a crise mundial actual, a menos que regressemos a alguns dos paradigmas reinantes desde o fim da II Guerra Mundial até ao final dos anos 90 (a propósito recorde-se que, por toda a Europa Ocidental, nos anos 50, se assistiu a inúmeras nacionalizações, num processo tão intenso quanto o ocorrido em Portugal após o 25 de Abril), é a primeira de muitas outras crises que teremos ainda que suportar.

O segundo conjunto prende-se, por seu lado, com a ideia defendida pelo autor de que “há ainda um longo caminho a percorrer para que em Portugal possamos encontrar no mainstream ideias amenas para o investimento, o gosto pelo risco, o empreendedorismo, …”. Esta é, em minha opinião, de uma ideia interessante mas … não fundamentada.

O neo liberalismo português tem-se traduzido desde a nossa adesão à CEE/UE:

a) na realização de inúmeros investimentos não reprodutivos (de entre os quais os estádios de futebol são o exemplo máximo que podemos apontar), ao contrário de países como a Irlanda (que apenas nos últimos anos se “tem dedicado” à construção de auto estradas), que em nada contribuíram para um crescimento acelerado e sustentado do PIB;

b) e no agravamento das disparidades na distribuição da riqueza (o que colocou Portugal, neste domínio, entre os países pior classificados em toda a OCDE).
A principal consequência de tudo isto foi o desaparecimento da chamada classe média.

Assim, estou de acordo com o autor quando afirma que “há ainda um longo caminho a percorrer”, no entanto não o situo apenas no campo das mentalidades, mas sim e fundamentalmente (para além do domínio do conhecimento necessário ao aproveitamento das várias revoluções industriais que se sucedem ao longo do tempo) no campo financeiro.

A este propósito chamo a tenção para o facto de que o rendimento médio mensal líquido dos quase quatro milhões de portugueses que obtêm o seu vencimento através de trabalho dependente, se situa em aproximadamente 720.00€ por mês.

Note-se que estamos a falar apenas naqueles que obtêm um vencimento, sendo por isso excluídos os reformados e os pensionistas!!!!

Perante este cenário não se pode exigir que uma população de cerca de 9 milhões de pessoas, onde 6 milhões são pobres ou quase pobres (sublinho que o que resta da nossa classe média é pobre quando comparado com a classe média de outros países europeus), mostre uma forte propensão para o risco, para o investimento e para o empreendedorismo. Um português afortunado apenas possui capacidade para investir, quando muito, numa pequena pastelaria (“sem fabrico próprio”).

Face ao exposto parece-me ser bastante razoável que o eleitorado rejeite soluções neo liberais; quer porque estas se traduzem inevitavelmente (num plano mais geral) em crises cíclicas, quer porque (num plano de maior proximidade) elas não são capazes de lhe proporcionar os apoios de que necessita (de entre os quais destaco o financiamento de pequenos e médios investimentos de particulares, a defesa da classe média - tomada de medidas que evitem a concentração dos “negócios” e/ou oligopólios e monopólios explorados por privados como se de situações de concorrência perfeita se tratasse – e a manutenção/implementação de mecanismos de distribuição da riqueza gerada).


De Eleitor a 12 de Setembro de 2009 às 11:49
A análise enferma dum grande erro: o que parte do eleitorado "cristalizou..."
O crescimento do BE tem resultado de votos de jovens urbanos, com maior expressão nas grandes cidades.
As razões são fáceis de perceber: as "ideias amenas para o investimento..." ,para os jovens são tudo menos amenas. Representam salários baixos, precariedade e impossibilidade de se autonomizarem das famílias.
A credibilidade da classe política (PS e PSD) está no nível mais baixo possível e isso serve na perfeição os que, com grande dose de populismo, as denunciam.
A continuar como estamos, ainda vamos ter o BE a constituir governo lá mais para a frente.


De Espinhos da Rosa a 12 de Setembro de 2009 às 15:07
Se se quiserem divertir um pouco com este Governo...

http://osespinhosdarosa.blogspot.com/ (http://osespinhosdarosa.blogspot.com/)

(não é como fazer jogging na Praça Vermelha de Moscovo, mas também é bom...)


De VFS a 12 de Setembro de 2009 às 17:07
http://intransmissivel.wordpress.com/2009/09/12/sobre-as-liberdades/


De João a 12 de Setembro de 2009 às 18:17
Muitas vezes se comenta que só em Portugal o peso dos votos à esquerda de partidos socialista pesa tanto, mas se analisarmos os parlamentos de outros países Europeus pode-se constatar que não é difícil encontrar pesos semelhantes em votos e ainda maiores em lugares parlamentares.
No Holanda o partido pós-comunista tem 25 deputados em 150 da câmara baixa e os verdes mais 7. Nos países Nórdicos, contam-se 27 em 175 na Dinamarca, 32 em 200 na Finlândia, 15 em 169 na Noruega.
Em Chipre, país que no recente relatório de competitividade surge a par da Espanha, o partido mais votado e actualmente no governo com 31.1% de votos e 18 deputados em 56 é o Partido Comunista de Chipre.

A este nível o maior problema em Portugal talvez não seja o peso desta esquerda, mas o peso excessivo dos partidos de regime, se tivéssemos por cá mais variedade, partidos liberais, verdes a sério, outras direitas, certamente esses 25% passariam a 15% ou menos pois muitos votos da abstenção passariam a ter quem os representar.
Infelizmente cá só há escolha entre 3 partidos de governo à vez, 2 de esquerda oposicionista e uma dúzia de pequenos que pouco diferem dos outros. Falta diversidade.


Comentar post


Jamais - Advérbio. Nunca mais, outra vez não, epá eles querem voltar. Interjeição muito usada por um povo de dez milhões de habitantes de um certo cantinho europeu, orgulhoso do passado mas apreensivo com o futuro, hospitaleiro mas sem paciência para ser enganado, solidário mas sobrecarregado de impostos, com vontade de trabalhar e meio milhão de desempregados, empreendedor apesar do Estado que lhe leva metade da riqueza, face à perspectiva terrível de mais quatro anos de desgoverno socialista. Pronuncia-se à francesa, acompanhado ou não do vernáculo manguito.
Vídeo da Semana
autores
posts recentes

Valeu a pena dizer "Jamai...

...

A luta continua.

Até amanhã camaradas

Post final

O novo PSD

"Obrigado Manuela", segui...

Saudações democráticas

Parabéns ao PS

No dia 27, vamos todos vo...

últ. comentários
O Sôtor Elisio Maia fala assim porque depende do a...
ótimo blog, parabéns...
Realmente é o pais considerado como o pais do truq...
Conversa de urinol ..... caro boy PS!!!
Caro amigo anónimo, de facto encontro alguma razão...
meu caro amigo, não duvido das suas competências.....
está completamente certa. Mais... o 12º é pior, po...
nao faz a minima ideia de como existem formandos a...
Esta afirmação de Platão devia estar melhor docume...
Escandalizam-me reflexões como as do artigo da Sra...
mais comentados
links
arquivos

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

subscrever feeds