Terça-feira, 15 de Setembro de 2009
publicado por Carlos Botelho em 15 Set 2009, às 23:28

 

Esqueçam a "entrevista" com os Gato Fedorento - de resto, o tipo de programa que se molda a e favorece bem mais uma personagem histriónica como José Sócrates, do que figuras mais genuínas como Manuela Ferreira Leite ou Jerónimo de Sousa (ou mesmo Louçã, até certo ponto). Se querem conhecer melhor o secretário-geral do Partido Sócrates2009, ouçam (sentados) esta entrevista exemplar que ele deu ontem a Maria Flor Pedroso, na Antena 1 (Sócrates não quis que as imagens filmadas ficassem on line - já perceberão porquê):

 

 

 

Na entrevista, Sócrates é, por assim dizer, captado in vivo. Não há guião que lhe valha, porque é confrontado com alguém que, efectivamente, lhe faz as perguntas que se espera sejam feitas a um político. E é precisamente por isso que ele reage tão mal. Pessimamente. Ouça-se, ao longo de quase toda a entrevista, o tom impaciente, duma insolência insuportável, contrariado, que atinge a má-criação para com a jornalista. (Logo nos primeiros minutos, quando ela, como é natural, lhe vai cortando as suas intermináveis melopeias entoadas de cor.)

 

Para o primeiro-ministro, reconhecer erros políticos é "ridículo" [sic] e um "exercício académico" [sic] (isto quando Flor Pedroso citava anteriores entrevistas - as da fase da "delicadeza", post-eleições europeias...). Praticamente, chama estúpida à interlocutora (ela nem compreende o que lhe parece óbvio, diz, jocoso), a propósito das recusas continuadas em dar entrevistas (suas e dos seus ministros) à TVI. Ridiculariza-a, imitando-lhe a voz - tudo num registo de bobo, dir-se-ia de estrebaria, não de corte. Sempre que a entrevistadora toca em pontos politicamente relevantes (demissão de Correia de Campos, consequências das políticas na Educação, etc), impedindo-o de se estender nas suas divagações (aquilo que Sócrates, na sua semântica peculiar, entende por 'respostas'), acusa-a de "só querer falar desses pequenos nadas [sic] e não dos problemas do país [sic]". Nem sei o que poderia ter acontecido naquele estúdio, caso Flor Pedroso se desse ao atrevimento de fazer alguma perguntinha sobre o assunto Fripor, esse "pequeno nada".

A pura agressividade do entrevistado chega a tal ponto, que a jornalista tem de dizer, como desculpando-se: 'Estou só a perguntar-lhe...' Tudo se passa como se, diante dela (e de nós), não estivesse um responsável político, mas antes uma criatura intratável. É o velho Sócrates, que desconsiderava insultuosamente os deputados das oposições com troças, momices e impropérios.

 

Sem responder às perguntas, lá se entreteve com as suas habituais falácias e analogias coxas a respeito da "avaliação dos professores" e disse, sem se rir, que "foi humilde" e "estendeu a mão". Depois, sobre tudo e sobre nada, como é seu costume, falou muito acima dos problemas, com as suas generalidades rarefeitas: o "combater os privilégios", o ser "corajoso", a "facilidade", o "interesse geral", o "escolher o melhor para o meu país", os "interesses corporativos", etc. Enfim, toda aquela litania mitológica que o homem imagina  justificar alguma coisa.

 

Chega a ser divertido ouvir-se alguém que não produz um discurso (só reproduz) vir, sentencioso, discorrer sobre a "substância da política". Um dos momentos mais interessantes, porque esclarecedores, a respeito do "pensamento" objectivo do primeiro-ministro, ocorre quando apresenta, como pólos mutuamente exclusivos, o "pretender ganhar uns votos [sic]"  e o "defender os interesses do país" - isto vindo do homem que, esbracejando nas suas arengas em sessão contínua, não faz mais nada do que insinuar a "reacção" nos outros e "citar" a famosa "suspensão da democracia".

 

O tom azedo e malcriado do primeiro-ministro na entrevista é compreensível. Como não, se ele nunca está preparado para manter uma conversa, responder efectivamente a perguntas, mas só para descarregar frases decoradas, chavões, inanidades – tudo imerso num imenso e enjoativo discurso auto-elogioso e de auto-comiseração? O primeiro-ministro detesta que lhe façam perguntas. Ele apenas deseja que lhe ponham à frente pretextos para se espraiar nas suas vacuidades.

 

Esta é uma entrevista recomendada para o conhecimento político da personagem que nos tem governado estes quatro anos e meio. E pretende reincidir.


31 comentários:
De el pibe a 16 de Setembro de 2009 às 08:28
onde podemos aceder à entrevista na integra!?!?!


De Clara França Martins a 16 de Setembro de 2009 às 09:01
"Ao longo de quase toda a entrevista, o tom impaciente, duma insolência insuportável, contrariado, que atinge a má-criação para com a jornalista. "
Ainda bem que colocaram o audio da entevista, pois não ouvi nada do que vocês dizem. Ouvi uma entrevista calma, normal, isso sim com perguntas um pouco disparatadas da jornalista, mas a que Sócrates responde com toda a paciência.


De Carlos Botelho a 16 de Setembro de 2009 às 10:40
Clara,
aceite os meus parabéns pelo seu humor.


De Nuno Delgado a 16 de Setembro de 2009 às 11:33
Não estupidifique as pessoas, ò Carlos Botelho. As pessoas ouvem a entrevista e são capazes de tirar as suas próprias impressões.


De Ricardo a 16 de Setembro de 2009 às 11:52
Noto nervosismo nas respostas, sem dúvida, um Sócrates muitos furos abaixo.
Agora, também noto que em 'asfixia democrática' uma jornalista de uma rádio pública, repito pública, faz este naipe de perguntas, "as perguntas que se espera sejam feitas a um político".
Dá para elaborar um pouco sobre esta 'indisciplina'? Só um pouco, não peço muito.
É um trabalho freelance?


De Anónimo a 16 de Setembro de 2009 às 13:10
Desculpe Carlos Botelho mas o seu texto é pura campanha demagógica. Li primeiro o que escreveu e só depois ouvi a gravação e sinceramente a Flor Pedroso é de perder a paciência, com o seu "muito bem", "muito bem". Ela formula sempre mal a pergunta...
Realmente o tom da jornalista é que é intrasigente, mal-educado em certas alturas, sempre a interromper e super impaciente.

País mesquinho!


De muita fibra para pouca verdade a 16 de Setembro de 2009 às 13:46
reação típica de um aldrabão compulsivo ao ser confrontado com as suas incoerencias.. livrem me deste tipo por mais 4 anos.. que falta de educação levantar a voz para demonstrar autoridade.. entre outros insultos.. enfim


De Proliferam especialistas em jornalismo a 16 de Setembro de 2009 às 13:51
Bom dia. Declaração de interesses: não vou votar PSD. Dito isto, realço que só a mais bruta das cegueiras é que permite ouvir esta entrevista e concluir que a jornalista fez perguntas disparatadas - como se pode ler em comentários vizinhos. É uma rádio pública, e só pode ser saudável que a entrevista tenha acontecido nestes moldes. Agora esta enchente de especialistas que vêm ensinar que o que é democrático e respeitoso é um jornalista não ser insolente com um candidato político... é ridiculo. Estamos a falar de jornalismo. só pode ser feito nestes moldes quando se trata de política. E sócrates é um PM. Tem de saber ouvir e tem de aceitar que tudo o que faz pode (e deve ser) criticável (ou seja, não se trata de falar mal porque sim, mas é democrático que haja criticas). A meio da entrevista (15 mins) fica respondão, imita vozes ridiculas, prova ser um gozão. O que diz muito sobre o carácter da pessoa. Goste-se ou não dele, pouco importa. Mas a jornalista fez o seu trabalho. Questionou e não recuou. E o engraçado é que ela manteve o tom de voz e até reformulou questões e concordou com ele. No entretanto ele gritava que era tudo muito injusto. Pobre homem. Se há cargo em Portugal (a seguir a ser treinador do benfica...) sujeito a criticas que podem ser injustas é o de primeiro-ministro. Se a cada entrevista socrates reage (e continua a reagir) assim... então se calhar há quatro anos atrás devia ter ficado quietinho. Pessoalmente, agradecia.


De Zé Passos a 16 de Setembro de 2009 às 14:14
Oh Carlos Botelho,

Tenha juízo. A jornalista, essa sim, foi um misto de tontice, impertinência e má-criação. Interrompeu vezes sem conta o entrevistado sem qualquer justificação senão a animosidade que a movia.


De Jorge Camacho a 17 de Setembro de 2009 às 11:33
Já via que há muitos assessores do governo por aqui.


De Touaki a 16 de Setembro de 2009 às 14:25
Alguém reparou no tom "adocicado", tipo Diácono Remédios quando procurava reganhar serenidade e retomar o discurso?
Figiu-lhe muitas vezes no "calor" da troca de impressões o "pé para a chinela", como se costuma dizer.
É um Sócrates irritadiço e insolente o que esteve presente na entrevista!


De Elísio Maia a 16 de Setembro de 2009 às 16:19
Já se questionaram porque razão a aqui tão afoita (e nas constantes interrupções ao entrevistado tão pouco educada) Maria Flor Pedroso tem a vivacidade mumificada quando entrevista Marcelo Rebelo de Sousa? Os jornalistas têm as suas simpatias (e antipatias) políticas como qualquer outro português e o risco reside não tanto aí como na aparência de neutralidade com que tentam apresentar-se. Era altura de as assumirem com clareza e não tomarem os portugueses por parvos.


De João Ratão a 17 de Setembro de 2009 às 01:40
NEM MAIS!!!


De Maria da Graça Franco a 17 de Setembro de 2009 às 18:20
Parece-me que temos no PS dois concorrentes a 1º ministro e ambos se chamam Sócrates-um é suave com voz de cordeiro, defende as suas ideias com paixao mas com moderação; o outro é arrogante, comporta-se como o mais inteligente da sua alcateia e foge à perseguição das perguntas incómodas. Entre ambos que venha o diabo e escolha...


De António a 29 de Setembro de 2009 às 12:40
Há uma GRANDE diferença, é que com o Marcelo Rebelo de Sousa o formato é o de conversa com o objectivo de extrair opiniões. O Sócrates é o primeiro ministro, com maioria absoluta, na legislatura mais longa da democracia portuguesa (mais de 4 anos e meio), sem nenhuma outra eleição pelo meio, que normalmente causam perturbação a quem está no poder, ou seja, teve condições para governar como mais ninguém teve em Portugal. Então com aproximação de eleições, não acham normal que se faça o julgamento da governação, para o bem e para o mal, mas tem que ser feito e não é admissível ter atitudes de criança mimada sempre que as perguntas fogem um pouco ao guião que trás preparado, é simplesmente vergonhoso.


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