Quarta-feira, 29 de Julho de 2009
publicado por José Gomes André em 29 Jul 2009, às 00:57

Gostaria de tecer algumas notas acerca de um estudo de Ricardo Reis sobre a despesa pública, a que vários blogues aludiram (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, entre outros). Devo dizer, antes de mais, que não sou especialista na matéria, mas mesmo um leigo fica confuso perante algumas conclusões do referido estudo. Passo a enumerar as minhas dúvidas principais:

 

1. O estudo analisa números brutos, sendo indiferente ao ciclo económico ou às circunstâncias existentes no período em causa.  Ao não ter em conta o necessário ajuste do ritmo de crescimento da despesa na sua relação com o crescimento da economia, o estudo acaba por ter um carácter demasiado abstracto, dificultando conclusões que se refiram a práticas políticas concretas.

 

2. O estudo detém-se apenas nos três primeiros anos e meio do Governo Sócrates. Com os gastos colossais previstos para este ano, é fácil prever que os números vão mudar e muito. Embora seja de aplaudir o esforço de contenção inicial do actual Governo, parece-me justo que se faça uma avaliação global nesta matéria, para já ainda impossível.

 

3. O estudo conclui que o PSD é o partido que mais gasta quando está no Governo. Porém, logo em seguida afirma-se também que os governos de maioria absoluta são os que gastam menos. Ora, tendo em conta que só tivemos três governos de maioria absoluta, e que dois deles foram do PSD, fico confuso. Então o PSD é quem mais gasta, mas quando governa em maioria absoluta (8 dos 23 anos a que se refere o estudo) é o que menos gasta? Isto é coerente e compreensível?

 

4. Os pontos anteriores, aliados a uma objectiva comparação dos dados, parecem apontar para uma conclusão algo distinta da noticiada: existiram dois governos com gastos praticamente idênticos (Cavaco e Guterres), e um governo (Sócrates) para o qual não há ainda dados finais (que serão possivelmente próximos - se não superiores - a estes). A anomalia refere-se portanto ao Governo de Durão/Santana (sobretudo quando este último era PM, Bagão Félix ministro das Finanças e Ferreira Leite já nem fazia parte do executivo), especialmente gastador e o único que saiu deste padrão mais ou menos constante. Retirar deste caso particular uma conclusão geral - dizendo-se que o PSD gasta muito e o PS pouco - parece-me francamente abusivo.

[também aqui].


7 comentários:
De João Galamba a 29 de Julho de 2009 às 11:01
João,

"O estudo analisa números brutos, sendo indiferente ao ciclo económico ou às circunstâncias existentes no período em causa. Ao não ter em conta o necessário ajuste do ritmo de crescimento da despesa na sua relação com o crescimento da economia, o estudo acaba por ter um carácter demasiado abstracto, dificultando conclusões que se refiram a práticas políticas concretas."

Vais-me desculpar, mas ista passagem é absurda. O indicador é em % do PIB, logo o ciclo económico e o crescimento da economia ~já estão incluídos na análise

Um abraço,
Joao Galamba


De Anónimo a 29 de Julho de 2009 às 14:30
É pelo facto da despesa ser medida em percentagem do PIB que os ciclos económicos têm que ser considerados. Se houver uma recessão, mesmo que a despesa se mantenha constante, há um aumento do rácio despesa/PIB. Ora, Cavaco Silva e Durão Barroso governaram durante as recessões de 1993 e 2003, respectivamente. Por outro lado, nunca houve nenhuma recessão nos governos de Guterres e de Sócrates (até 2007).


De José Gomes André a 29 de Julho de 2009 às 15:02
O meu desconhecimento técnico pode ter gerado esta má formulação. O que queria dizer é que temos de ter em conta o ciclo económico e as circunstâncias específicas do país, bem como a herança de encargos feitos por governos anteriores (vide caso Guterres-Durão). Ou não? Um abraço!


De jeronimo a 29 de Julho de 2009 às 11:04
O seu argumento não colhe porque não seria honesto incluir nos dados do governo Sócrates os gastos do último ano. Pela simples razão que é um período completamente atípico e anormal, em que todos os governos estão a gastar bastante mais do que o habitualpara fazer face à maior cirse os últimos 80 anos. Todo o mundo está em recessão acentuada. Isto exige gastos fora do normal para atenuar os efeitos desta crise. Ou também partilha da opinião de alguns em que isto não passa de um abalozinho ?


De José Gomes André a 29 de Julho de 2009 às 15:03
E não seria honesto porquê? Mas o "estudo" é apenas sobre gastos em "anos normais"? Ou é sobre os gastos brutos? Elimina-se um ano do estudo porque não dá jeito para a conclusão que o autor pretendia tirar. Essa é boa...


De jeronimo a 29 de Julho de 2009 às 15:08
Se Vc acha que não estamos num período a todos os níveis excepcional, incomparável com qualquer outro da nossa história recente, não sei como lhe posso explicar. Subscreve portanto a tese do "abalozinho" ? Gostava que fizesse um exercício de comparação da evolução do défice noutros países, como a França, UK, Alemanha, Espanha, Russia, USA. Pela sua óptica consegui-se um pleno de péssimos governantes nesses países já que há anos não se tinham resultados tão maus.


De Paulo M a 30 de Julho de 2009 às 20:18
O estudo aludido não tem muita credibilidade na medida que ele é construído para dar uma conclusão. Apenas e só isso. Inicialmente, surpreso com os resultados, que vão contra todos os demais publicados sobre o assunto, pedi ao autor que explicasse porquê a ausência do ajustamento do PIB ao ciclo. Ele ignorou-me. Fui persistente e pelas respostas dadas compreendi que aquilo era um exercício estatístico para a disputa política e não um verdadeiro estudo para aferir do verdadeiro crescimento do chamado "monstro estatal".

Quando se espreme um limão, por muito seco que ele seja, ele dá sempre sumo. Nem que seja mais da casca. Na estatística económica acontece o mesmo, em que espremos tanto os números até que eles gemam ao gosto dos nossos ouvidos.

Os objectivos do tal estudo seriam analisar os gastos do Estado. Mas foi logo usada uma metodologia que já não se usa é é considerada arcaica. Que é estimar apenas os números constantes, em termos contabilisticos, do consumo público. Mas ao longo dos anos essa metodologia foi abandonada por manifesta falta de credibilidade, já que o objectivo do consumo público era contabilizar de modo apropriado o consumo do Estado, de acordo com a normas contabilisticas aceites, mas que os governos desvirtuaram.

Depois, os dados calculados não têm em conta deflatores, já que o consumo público tem deflatores diferentes dos do PIB. O que é outro erro que devia ser evitado, por quem deseja mesmo fazer um trabalho rigoroso.

Por fim, não leva em conta o PIB ajustado. Que pode ser comprovado nesta frase, que é ela toda uma "red flag" quanto os próprios propósitos do tal estudo:

"Se excluirmos o enorme aumento na despesa no primeiro trimestre de 2009 associado à crise, o governo de José Sócrates e dos ministros Campos e Cunha e Teixeira dos Santos teria a rara distinção de ser o único governo que reduziu o tamanho do monstro, de 21,5% do PIB quando tomou posse para 21% no final de 2008."

Ora, estes dois valores são precisamente o peso obtidos pela divisão do Consumo Público pelo PIB a preços correntes, divulgados pelo Banco de Portugal. Como se pode comprovar aqui por este ficheiro:

http://www.bportugal.pt/publish/bolecon/docs/series_trim_77-08_p.xls

Mostrando que o autor não ajusou nada ao ciclo o PIB e faz apenas umas contas simples, como se fosse uma grande descoberta.

Para cúmulo, nota-se que existiu uma espécie de compressão do limão, para ele confessar alguma coisa, quando o autor diz que se excluirmos os gastos do primeiro trimestre de 2009, o governo actual teria feito um excelente trabalho. Mas se ele usasse o mesmo argumento anteriormente, se excluirmos os dois últimos trimestres do governo do Santana Lopes, o governo CDS/PSD teria feito um excelente trabalho! Denotando que o autor não fez este estudo, se é que se pode chamar assim a esta compressão do limão, para descobrir factos, mas fez o contrário. Tentou manipular números para confirmar uma tese, talvez por estarmos em período eleitoral.

E, ainda mais caricato, é que os resultados que ele diz chegar através da sua metodologia não são replicáveis por outros. Como eu por exemplo, que usando os cálculos dele cheguei a outras conclusões.

Infelizmente apercebi-me que o autor do estudo deve dominar pouco o assunto e tentou evitar debater "macroeconomia" no blogue da Sedes e chegou a afirmar várias vezes que fez os cálculos ajustando ao ciclo, que é uma mentira pegada.

Posso estar enganado, mas acho que o autor desconhece o que se faz em Portugal, já que as suas conclusões estão em completo desacordo com as conclusões da generalidade dos autores portugueses. Acho que o autor do artigo deveria pedir ao Banco de Portugal que lhe fornecesse os trabalhos públicos de autores como Pedro Neves e Luis Sarmento, para entender a problemática e evitar o uso de simples empirismo a séries macroeconómicas.

É pena que em Portugal se dê demasiada atenção a estudos propagandísticos em vez de estudos sérios. E aquele artigo de opinião foi apenas uma tentativa de influenciar os eleitores, tentando provar que só com maiorias absolutas se pode baixar o peso do dito "monstro" e que o PS é o campeão do controlo da despesa. A prova disso é que os resultados, usando a própria metodologia dele, mostram a Ferreira Leite como uma excelente ministra. Em Minoria.


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Jamais - Advérbio. Nunca mais, outra vez não, epá eles querem voltar. Interjeição muito usada por um povo de dez milhões de habitantes de um certo cantinho europeu, orgulhoso do passado mas apreensivo com o futuro, hospitaleiro mas sem paciência para ser enganado, solidário mas sobrecarregado de impostos, com vontade de trabalhar e meio milhão de desempregados, empreendedor apesar do Estado que lhe leva metade da riqueza, face à perspectiva terrível de mais quatro anos de desgoverno socialista. Pronuncia-se à francesa, acompanhado ou não do vernáculo manguito.
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