Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
publicado por Rodrigo Adão da Fonseca em 23 Set 2009, às 00:13

Na minha humilde opinião, boa parte da suposta "direita" tem vindo a adormecer, desde o início dos anos 90, afastando-se da vida pública, convencida que o modelo capitalista teria eliminado de vez o perigo totalitário do socialismo; a queda do Muro de Berlim foi a pedra de toque que ajudou a reforçar a falsa sensação de que o modelo liberal-capitalista teria vencido, e que o mundo estaria livre de todos os Socialismos. Desde aí, foi-se consolidando na sociedade portuguesa a ideia que as dicotomias “esquerda-direita” estariam ultrapassadas, e o que era importante, mais do que discutir ideologias, seria escolher bons tecnocratas que cuidassem da adequada gestão da coisa pública, de que Cavaco Silva e José Sócrates são exemplos paradigmáticos.

 

O tempo tem-se encarregado de nos provar até à saciedade que esta demissão da "direita" traduzida num abandono significativo do espaço público tem sido um enorme erro: travestido das mais diversas formas, desde o supostamente inócuo ”socialismo de mercado”, às lógicas mais radicais, do altermundismo, do ecologismo chic e dos grupos anti-globalização, à recuperação de certos chavões que julgávamos afastados de vez do espaço de discussão, como nacionalizações e expropriações, as retóricas socialistas mantiveram-se presentes; Portugal, em vez de evoluir para um modelo social mais dinâmico e livre, deixou-se enredar num compromisso incompatível, numa síntese esquizofrénica que, por um lado, quer os benefícios do mercado e das sociedades mais evoluídas, mas que por outro não consegue abandonar os slogans socialistas mais básicos e as utopias mais inatingíveis.

 

A presente crise mundial veio asfixiar ainda mais o debate, mostrando como as retóricas socialistas se souberam enraizar no sistema político e comunicacional, e como os seus clichés tiveram uma consagração incoerente, mas fatal, no tecido social. A presente crise mundial mostra-nos ainda como é necessária uma sociedade civil forte e exigente, que normalmente, nas economias mais desenvolvidas, se arreiga nas classes médias e nas elites que recusam os socialismos: é que a crise financeira abriu o caminho a um “estatismo acrítico”, que se autolegitima na oposição a um “neoliberalismo” que ninguém defende, e se sustenta numa abordagem “keynesiana” que deve deixar John Maynard Keynes a revirar-se no túmulo, que nos irá sair a nós, meros cidadãos comuns, muito caro.

 

Uma atitude de exigência e desconfiança no sistema estatal, que despreza a capacidade dos indivíduos e das redes construídas longe do sistema burocrático, faz hoje mais sentido do que nunca; uma atitude que denuncie as teias de interesses que se movem em redor do Estado, o desperdício, o compadrio travestido de “Bem Comum”, a oneração irreversível das gerações futuras, é essa a forma de estar que melhor serve os cidadãos comuns, em particular, os mais jovens, menos comprometidos e mais prejudicados com o actual estado das coisas.

 

O mundo divide-se hoje entre os que procuram pelos seus meios, o seu espaço, e os que esperam, de mão estendida, aquilo que o sistema burocrático tem para lhes dar. A dicotomia política faz-se hoje entre os que permanecem fiéis aos valores políticos que assentam na confiança no indivíduo, na sua capacidade e criatividade, e defendem a sua autonomia e a sua esfera de direitos, e os que projectam no Estado as suas aspirações, limitando na teia legal-burocrática o seu raio de acção.

 

Portugal assiste impávido e crédulo à escalada galopante do Estatismo e à captura de recursos pelas cliques que o rodeiam; a factura a pagar, se persistirmos neste caminho, vai ser elevadíssima, em particular a dos mais jovens e dos mais pobres.

 


1 comentário:
De João Neto a 23 de Setembro de 2009 às 09:59
Muito bem, Rodrigo.


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Jamais - Advérbio. Nunca mais, outra vez não, epá eles querem voltar. Interjeição muito usada por um povo de dez milhões de habitantes de um certo cantinho europeu, orgulhoso do passado mas apreensivo com o futuro, hospitaleiro mas sem paciência para ser enganado, solidário mas sobrecarregado de impostos, com vontade de trabalhar e meio milhão de desempregados, empreendedor apesar do Estado que lhe leva metade da riqueza, face à perspectiva terrível de mais quatro anos de desgoverno socialista. Pronuncia-se à francesa, acompanhado ou não do vernáculo manguito.
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