Quinta-feira, 30 de Julho de 2009
publicado por Carlos Botelho em 30 Jul 2009, às 16:59

 

Há qualquer coisa de tremendamente errado quando um primeiro-ministro se orgulha de deixar uma Escola com, citando-o, 'menos professores, mais alunos e maior sucesso'. (Como aqui e aqui.) Só alguém que não pensa nada sobre a Escola e não sabe do que fala pode dizer uma coisa daquelas. Aquela resplandecente trindade nunca pode ser o fito de uma política escolar. Para além de ser apenas um estribilho vazio que nada diz (como Sócrates gosta), é uma pretensa descrição que passa completamente ao largo do que deve ser a Escola. Aquele entusiasmo despropositado do primeiro-ministro corresponde ao sonho de um burocrata louco.

 

É arrepiante pensar que alguém que parece não ter uma única ideia sobre a Escola 'se tenha empenhado pessoalmente' nas medidas do ministério da Educação e que algumas destas 'lhe sejam muito caras', como disse a ministra ao Diário de Notícias do dia 26. [Afirmações publicadas apenas na edição em papel.] Este acompanhamento tão próximo ajuda a explicar tanto disparate e tanta crispação inútil que foram perpetrados na Escola ao longo destes quatro anos.

 

'Menos professores'. É verdade que a Escola não existe para empregar professores ou candidatos a tal. Ela existe para os alunos - não alunos inertes e passivos como Sócrates/Lurdes Rodrigues os concebem, mas alunos com autonomia responsabilizante na sua própria emancipação. (E, para isso, a Escola deveria ser um meio fundamental - este governo, precisamente, degradou essa "função" da Escola.) No entanto, por si só, "ter menos (ou "ter mais") professores" nunca pode ser um objectivo. Primeiro, há que pensar que papel deve ser o do professor na Escola (e, pressuposto a isso, saber-se o que se pretende que a Escola seja). Só depois se determina, de acordo com as necessidades estabelecidas, se há docentes "a mais" ou "a menos". (E mesmo esta formulação resulta ridícula.) Dizer-se que há professores "a mais" ou "a menos" é o mesmo que não dizer nada. É que não é um dado natural haver "a mais" ou "a menos" - essa apreciação quantitativa depende da fixação das necessidades de recursos humanos do sistema e elas são fixadas politicamente. Há sempre uma opção política prévia a essas considerações. Estamos perante posições políticas e não dados "técnicos" incontornáveis.

 

135 000 docentes é, à primeira vista, um número impressionante. Mas, se pensarmos que estão divididos por doze anos de escolaridade, por dezenas de disciplinas e por um milhão e quinhentos mil alunos (número daqui), isto é, se não olharmos para '135 000' em abstracto, como o primeiro-ministro faz, as coisas não parecem já tão simples. São "muitos" ou são "poucos"?

 

Teoricamente, podemos sempre conceber ("socraticamente") um sistema escolar público ainda com menos docentes (porque não 100 000, 80 000?), ainda com mais alunos e ainda com mais sucesso.  Por exemplo, reduzindo drasticamente o número de disciplinas (aplicando a falácia das "competências horizontais", com um mesmo docente leccionando disciplinas diversas consideradas afins pelos "pensadores" de serviço) ou determinando o aumento do número mínimo de alunos por turma. Para o patriótico desiderato do "sucesso", bastaria reforçar toda uma bateria de processos burocráticos e mecanismos avaliativos que induzem, que encorajam artificialmente o "sucesso" nas classificações. É possível? Claro que sim. Uma autêntica "utopia prometida" que poria Sócrates/Lurdes Rodrigues/Valter Lemos com os olhos em alvo. Mas... estaria salvaguardada a qualidade dessa Escola?... E ainda seria verdadeiramente uma Escola?... Muita gente se parece ter esquecido (o governo e também os seus aliados objectivos à direita, incapazes de verem objectos à distância) que a preocupação fundamental, aquilo que nunca se deve perder de vista numa política de ensino da república é a qualidade da Escola - isso, que não exclui de todo a boa gestão dos recursos (que são escassos), tem de estar assegurado.

 

A tendência nociva já vem de trás, mas graças a estes quatro anos de governação Sócrates (uma governação que não pensa nem ), a Escola portuguesa tornou-se inóspita para aqueles que poderiam ser bons alunos. Esta Escola "socrática" não os deixa. Sufoca-os desde os primeiros anos e vai fazendo-os vegetar na mediocridade ao longo do percurso. Todos os sinais são dados para que os rapazes e as raparigas, desde o início, não vejam o esforço como meritório. E não têm outra Escola que os reconheça. Gradualmente, ir-se-ão submetendo à rasoira. No fim, lá estará o "sucesso" "socrático" garantido.

 

'Mais alunos'...

'Maior sucesso'...

 

(Continua.)


8 comentários:
De Levy a 30 de Julho de 2009 às 17:31
Os bons alunos são simplesmente ignorados por este sistema. 90% do tempo e do trabalho é para tratar dos que quem não quer aprender e não deixam os outros aprender.


De Carlos António a 30 de Julho de 2009 às 18:16
'menos professores, mais alunos e maior sucesso'.

Isto em economia da educação chama-se "elevar a eficiência" do sistema educativo.
Pensei que um blog de apoio ao PSD fosse sensível a isto.
Talvez tenham apenas inveja de ter sido um governo PS a conseguir inverter aquela que era uma das mais perversas tendências passadas do sistema.


De Carlos Botelho a 30 de Julho de 2009 às 23:22
Carlos António,
está a brincar, não está? O governo PS inverteu o quê? Agravou o que já havia de errado e criou novas perversões.
De resto, a sua expressão "elevar a eficiência do sistema educativo" é abstracta, vazia - tão vazia como a trindade "socrática". V. limita-se a repetir propaganda de cor - a realidade não conta, pois não?...


De João Freitas a 31 de Julho de 2009 às 12:09
O "Carlos António" tem que cumprir ordens. É a vida. Eles lutam pela sobrevivência.


De Daniel João Santos a 30 de Julho de 2009 às 19:30
Não me parece que isto tudo só tenha tenha sido feito em 4 anos. Esta belíssima obra tem mais arquitectos.


De Carlos Botelho a 30 de Julho de 2009 às 23:28
Claro que não, Daniel. Refiro isso no post. O próprio PSD tem também responsabilidades nisso. Há uma doença "pedagógica" geral que afecta vários Partidos. Mas o governo Sócrates deu passos de gigante na degradação da Escola. Ao fim destes quatro anos, ela ficou gravemente danificada por muitos anos... Não vai ser fácil recuperar da obra de Sócrates/Lurdes Rodrigues/Valter Lemos.


De moedasviriathus a 30 de Julho de 2009 às 22:36
Exames nacionais como havia antigamente,escolas técnico-profissionais como também havia antigamente.Avaliação de professores e alunos.Acho anormal depois de terem acabado com o império, portanto com os lugares de administração, a rapaziada não se tenha convencido que tem que ensinar a fazer uma coisa qualquer vendável.


De José Barros a 30 de Julho de 2009 às 23:59
O legado deste governo em matéria de educação cinge-se aos 200 alunos com 8 ou mais chumbos num só ano que transitaram para o ano seguinte, isto só para falar nos casos conhecidos e noticiados pelos jornais. Como o Carlos Botelho diz no seu comentário, vai levar anos (arrisco: décadas) a reverter o descalabro em matéria de qualidade de ensino nas escolas públicas.


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Jamais - Advérbio. Nunca mais, outra vez não, epá eles querem voltar. Interjeição muito usada por um povo de dez milhões de habitantes de um certo cantinho europeu, orgulhoso do passado mas apreensivo com o futuro, hospitaleiro mas sem paciência para ser enganado, solidário mas sobrecarregado de impostos, com vontade de trabalhar e meio milhão de desempregados, empreendedor apesar do Estado que lhe leva metade da riqueza, face à perspectiva terrível de mais quatro anos de desgoverno socialista. Pronuncia-se à francesa, acompanhado ou não do vernáculo manguito.
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