Quarta-feira, 19 de Agosto de 2009
publicado por Carlos Botelho em 19 Ago 2009, às 13:25

 

Este tipo de textos é exemplar do modus loquendi “socrático”. O que ali vemos é a reprodução (em versão melhorada, claro) do discurso de Sócrates. Aqueles que poderiam ser apresentados como argumentos políticos não subsistem por si, na sua própria “racionalidade”, mas assentam em considerações “morais” quase sempre personalizadas.

Como o primeiro-ministro, parceiros de governo e partido têm feito nestes quatro anos, também aqui se induz o ressentimento e a inveja social entre classes profissionais para justificar opções políticas: [sublinhados meus] O 'benefício exclusivo de certas corporações. Quem teve força, impôs as regras. Os outros foram cilindrados.’ – pressupõe-se ser, então, o engenheiro Sócrates o cavaleiro justiçoso que terá reposto as coisas no seu devido lugar, o lugar moralmente certo. Cilindrando todos por igual, presume-se? De resto, o verbo ‘cilindrar’ foi também usado por um secretário de estado – o complemento directo desse verbo politicamente revelador seriam os funcionários públicos mais ariscos à nova ordem “socrática” para a administração, lembram-se?

Nem deixamos de ter aqui uma das acusações mais venenosas do discurso do primeiro-ministro (talvez só superada pelas arremessadas aos professores): a das famosas “férias judiciais”. O veneno destas trapaças ad hominem está em ir condicionando o olhar do público, levando-o a apoiar as políticas do governo, não pelas suas supostas qualidades intrínsecas, mas pela inveja a que votasse grupos profissionais inteiros. Num certo sentido, há que compreender piedosamente esta desonestidade de Sócrates, porque, de facto, nas políticas para muitos sectores, era impossível invocar uma racionalidade que não estava lá.

Por outro lado, repare-se que as posições contrárias ao governo são moralmente e não política ou ideologicamente qualificadas. O "benefício injusto", o "privilégio", a "indolência", a "preguiça", a que se pode acrescentar a "maledicência", etc. Pôr as coisas nestes termos, como Sócrates sempre pôs também, é furtar-se à discussão política e colocar-se, de um modo bem pouco corajoso, num plano superior: o moral. Um plano que fica higienicamente afastado do debate e do exame e que se subtrai ao confronto com a realidade. Sendo a posição de Sócrates e Ca. a "moral" e a "justa", passa-se de imediato um atestado de torpeza à malandragem que se lhe oponha. Assim, os opositores, os descontentes não passam de "marajás" – poderia dizer-se nababos – e o que o heróico Sócrates conseguiu foi “meter-se num vespeiro” (e porque não um ninho de víboras?). Se pensarmos na quantidade de Portugueses afectados pelas opções “socráticas” – das quais, por manifestos problemas de visão, por mais que civicamente se esforcem, não conseguem lobrigar a “justeza das medidas” -, temos, então, um povo de marajás, isto é, gente que vive indolentemente na opulência. Gente que, malevolamente, resiste àqueles que só querem "tornar o país mais justo".(Neste momento, não consigo deixar de me lembrar de 507 000 marajás que por aí bocejam num fausto decadente e privilegiado...) Gente que não merece o senhor primeiro-ministro.

Realmente, não merecemos isto.


1 comentário:
De Nuno Castelo-Branco a 19 de Agosto de 2009 às 19:16
Tout ça c'est vrai ou il s'agit d'une plaisanterie, "messiê" Pittá?


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Jamais - Advérbio. Nunca mais, outra vez não, epá eles querem voltar. Interjeição muito usada por um povo de dez milhões de habitantes de um certo cantinho europeu, orgulhoso do passado mas apreensivo com o futuro, hospitaleiro mas sem paciência para ser enganado, solidário mas sobrecarregado de impostos, com vontade de trabalhar e meio milhão de desempregados, empreendedor apesar do Estado que lhe leva metade da riqueza, face à perspectiva terrível de mais quatro anos de desgoverno socialista. Pronuncia-se à francesa, acompanhado ou não do vernáculo manguito.
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