Sábado, 25 de Julho de 2009
publicado por Miguel Morgado em 25 Jul 2009, às 18:28

Há uma diferença que é muito mais do que um detalhe teórico, e que separa a esquerda (a democrática e a outra) de uma abordagem responsável - nos vários sentidos da palavra - à política. Há uns dias escrevi sobre o assunto a propósito de um manifesto que sugeri que se publicasse contra as declarações de Vítor Bento. Nessa posta propus que o dito manifesto fosse intitulado "O TRIUNFO DA VONTADE". Mas hoje o inspirador Simplex força-me a insistir no assunto. Irene Pimentel resolveu em boa hora prestar preciosos esclarecimentos sobre a Utopia, tanto sobre a obra que Tomás Morus assinou, como aquela vaga e sofrida referência que se faz quando não se tem grande ideia sobre o que se quer dizer. Diz a Irene Pimentel:

"A República utópica não está em nenhum lugar porque é perfeita e a perfeição não é realizável na terra, embora possa sê-lo, na ordem política, em resultado da vontade e da acção do homem. Por exemplo, a enorme diminuição da mortalidade infantil em Portugal desde o 25 de Abril era uma utopia, mas que (só) foi possibilitada pela democracia".

Por razões que compreenderão, escuso-me de comentar a pertinência da comparação entre a "República utópica"  e a "enorme diminuição da mortalidade infantil em Portugal". A natureza do comentário citado da Irene Pimentel esclarece também por que é que é inútil indicar que o diálogo sobre a ilha da Utopia na obra de Tomás Morus se inicia com interlocutores que têm fome, que ainda não almoçaram.

Mas vale a pena tentar perceber que a incompreensão da ideia de utopia tem necessariamente de afectar aquelas almas que, à superfície, mais dispostas estão a acolhê-la. Se, por um lado, neste cantinho do mundo que finge ser do Primeiro, mas convive mais confortavelmente com o Terceiro, que é Portugal, ainda tem de se aturar um ou outro "comentador" que se dirige à nação comunicando tolices como "a esquerda é dos ideais" e "a direita é dos interesses" ; por outro lado, o espalhanço da Irene Pimentel mostra que esta falsa abertura à utopia revela precisamente o seu contrário: uma obsessão com a omnipotência da vontade.

O que também revela é uma indisponibilidade mais ou menos consciente para pensar a política enquanto tal, porque a política torna-se nem mais nem menos num campo de laboratório das experiências da vontade; torna-se num objecto puro ao alcance da técnica que a "malta que sonha" queira aplicar. Os generosos "utopistas" metem um ideal na cabeça e depois preocupam-se em tornar o mundo numa superfície lisa que assuma a forma desejada sem reclamar, nem sangrar. Por vezes, o mundo não reclama, ou reclama em silêncio, quando lhe impõem o modelo que as emoções políticas resolvem ditar. Mas sangra sempre. Como a vontade é que conta, a sangria não entra nestas contas. A esquerda não compreende isto. Nem a esquerda totalitária nem a outra.


9 comentários:
De António Pires a 25 de Julho de 2009 às 20:07
Relativamente à citação de Irene Pimentel de que " a enorme diminuição da mortalidade infantil em Portugal desde o 25 de Abril ... só foi possibilitada pela democracia" refiro um gráfico da mortalidade infantil publicado por J P Pereira no Abrupto, em 27 de Abril passado, onde se mostra que a diminuição da mortalidade infantil se deu pelo menos desde 1960, sendo a maior taxa de redução observada entre 1970 e 1975. Não é possível concluir que tenha sido obra do 25 de Abril.


De José Barros a 25 de Julho de 2009 às 21:37
O post da Irene Pimentel é um bom exemplo do discurso de esquerda socialista neste país: pomposo, redondo, fútil. Numa palavra "meaningless".

No entanto, eleitoralmente é à custa destes discursos - iniciados por Mário Soares - que a esquerda ganha votos. Até porque a direita nunca conseguiu desmontar este tipo de "bullshit".


De Carlos Santos a 25 de Julho de 2009 às 21:44
Caro Miguel Morgado,

Encontrará no SIMplex um texto do João Galamba com 3 referências a textos onde se demonstra, sem necessidade de qualquer manifesto, que o "Voodoo Economics" do Dr. Vitor Bento está economicamente errado. Ignora aspectos que o Dr. Vitor Bento mas que, seguindo algum simplismo de parte da blogosfera lusa mais instituída, opta por ignorar: como a existência de métodos de valoração de externalidades.
Cumprimentos,
Carlos Santos


De Paulo Marcelo a 25 de Julho de 2009 às 22:16
Boa posta Miguel, chegar e arrasar.


De Ana Vidigal a 25 de Julho de 2009 às 22:53
Pedia a António Pires, se não for pedir muito, para me apresentar o «gráfico da mortalidade infantil publicado por J P Pereira no Abrupto, em 27 de Abril passado, onde se mostra que a diminuição da mortalidade infantil se deu pelo menos desde 1960, sendo a maior taxa de redução observada entre 1970 e 1975».


De António Pires a 26 de Julho de 2009 às 10:46
No Abrupto, consultar o Arquivo relativo a Abril de 2009. Num post publicado às 10:09, intitulado "Pode haver uma deriva totalitária em Portugal?", encontrará o gráfico. É a segunda gravura do post.


De Joaquim Paulo Nogueira a 26 de Julho de 2009 às 11:41
o gráfico não estava nesse dia, estava num outro dia. encontrei-o logo à primeira a partir da pesquisa "mortalidade infantil" no abrupto, tendo baixado a imagem. infelizmente não lhe sei dizer o caminho porque quando lá voltei perdi-me e já não o consegui encontrar. se não o conseguir encontrar, pode encontrá-lo no meu blogue, estou a pensar publicá-lo.


De rodrigo a 25 de Julho de 2009 às 22:59
É impressionante que nem num simples blogue o PSD consegue demonstrar originalidade. Irem buscar uma expressão utilizada por um ministro do actual executivo socialista para fazerem oposição/campanha só demonstra a falta de ideias que reina por esses lados.
Concordo com o facto de todos os partidos terem um espaço para exposição e debate de ideias, no entanto, criar um blogue só para fazer oposição a outro blogue e utilizar nele uma expressão só demonstra o que se pode esperar de um governo social-democrata. Falta de ideias, propostas zero e oportunismo político ao máximo.


De A. R a 26 de Julho de 2009 às 00:53
A diminuição da mortalidade infantil era bem clara antes do 25 de Abril e isso está no site da OMS. Aliás os valores da URSS, uma democracia avançada do tipo "Sol do Mundo", até eram à altura bem piores que os de Portugal.

Uma coisa que para mim foi novidade no pós-25 de Abril foi a cólera da qual nunca tinha ouvido falar.


Comentar post


Jamais - Advérbio. Nunca mais, outra vez não, epá eles querem voltar. Interjeição muito usada por um povo de dez milhões de habitantes de um certo cantinho europeu, orgulhoso do passado mas apreensivo com o futuro, hospitaleiro mas sem paciência para ser enganado, solidário mas sobrecarregado de impostos, com vontade de trabalhar e meio milhão de desempregados, empreendedor apesar do Estado que lhe leva metade da riqueza, face à perspectiva terrível de mais quatro anos de desgoverno socialista. Pronuncia-se à francesa, acompanhado ou não do vernáculo manguito.
Vídeo da Semana
autores
posts recentes

Valeu a pena dizer "Jamai...

...

A luta continua.

Até amanhã camaradas

Post final

O novo PSD

"Obrigado Manuela", segui...

Saudações democráticas

Parabéns ao PS

No dia 27, vamos todos vo...

últ. comentários
O Sôtor Elisio Maia fala assim porque depende do a...
ótimo blog, parabéns...
Realmente é o pais considerado como o pais do truq...
Conversa de urinol ..... caro boy PS!!!
Caro amigo anónimo, de facto encontro alguma razão...
meu caro amigo, não duvido das suas competências.....
está completamente certa. Mais... o 12º é pior, po...
nao faz a minima ideia de como existem formandos a...
Esta afirmação de Platão devia estar melhor docume...
Escandalizam-me reflexões como as do artigo da Sra...
mais comentados
links
arquivos

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

subscrever feeds