Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Jamais

Jamais

08
Set09

Novas oportunidades ou a ignorância certificada

Miguel Reis Cunha

" (...) E fiquei atónita. Em Português o formando teria que escrever a história da sua vida e a razão por que se inscreveu no curso, sendo o texto corrigido aula a aula pela respectiva formadora; Matemática consistia em efectuar cálculos básicos e apresentar, por exemplo, a receita de um bolo e duplicá‐la; para Informática apercebi‐me que seria a apresentação do rabalho escrito e, posteriormente, quem quisesse apresentá‐lo‐ia em “powerpoint”; em cidadania, os formandos apresentavam os diferentes resíduos e diziam em que contentor os deveriam colocar. (...)

Três meses passaram num abrir e fechar de olhos, por isso um destes dias, enquanto guardava a minha vez para ser atendida no consultório médico, fui brindada com o dossier do curso da recepcionista e respectivo certificado de 9º ano. Engoli em seco aquelas páginas recheadas de erros ortográficos e de construção frásica, desencadeamento de ideias e falta de coesão, (…), entremeados por bonitas fotografias; na II parte, umas contitas simples e duas tábuas de multiplicação; e em Cidadania, os contentores do lixo coloridos com a indicação dos resíduos que se põem lá dentro.
Em seguida, com um sorriso muito branco (nem o amarelo consegui!) e, como bem educada que sou, felicitei a dona do dossier cuja capa estava realmente bonita, original, revelando bastante criatividade e ouvi‐a alegre dizer: “A formadora disse‐me que tinha hipóteses de fazer o 12º ano. Logo que possa, vou fazer a minha inscrição!”
Fiquei estarrecida, sem palavras para lhe dizer o que quer que fosse. “As Novas Oportunidades” são isto? Está a gastar‐se tanto dinheiro para passar certificados de ignorância? Será que todos os formadores serão iguais a estes ? E o 9º ano é escrever umas tretas e ler um Nicholas Sparks e um artigo da revista “Simplesmente Maria”? E o 12º ano será a mesma coisa (queria dizer chachada) acrescida de uma língua?
Continuando assim o país a tapar o sol com a peneira, teremos em poucos anos a ignorância certificada!"

 

Marta Oliveira Santos "Correio da Educação" (Edições ASA)

6 comentários

  • Sem imagem de perfil

    Francisco 09.09.2009

    Acho que isso só se minimiza com ética. E você como é que acha que isso se evitaria?
  • Sem imagem de perfil

    jose costa 25.08.2010

    Ao ler este artigo de opinião o que me chama mais a atenção e o tom discriminatório com que esta senhora se refere ao cabeleireiro, sapateiro, empregada doméstica, parecendo que são pessoas que não deveriam sequer ter oportunidade de estudar, seja nas Novas Oportunidades ou noutro curso qualquer.
    Em relação ao curso em si acho que os objectivos destes cursos são diferentes do ensino regular.
    Tem como objectivo principal certificar as competências de cada um, obrigando-nos a pesquisar, ler, escrever e reflectir sobre coisas do dia-a-dia sobre os quais em condições normais não o faríamos.
    Obriga-nos a ir as nossas origens, a perceber e reflectir sobre o porque de certas coisas, a relembrar outras e a aprender, dar nomes às que já sabíamos mas que não conseguíamos classificar, e identificar.
    Abre-nos outros horizontes, não querendo com isso dizer que o equiparo ao 9º ano do ensino regular, pois os objectivos deste são diferentes tendo como objectivo principal a continuação dos estudos, e quem sabe mais tarde tirar uma licenciatura, para que assim possam a ser “Doutores.”
    Que e o que me parece que actualmente e o mais importante no nosso pais ter uma licenciatura não importa em que e então já passam a ser “Doutores”.
    Somos uns pais de “Doutores” desempregados muitos deles, mas “Doutores”.
    Esta Senhora parece ter algum receio que os estudantes das Novas Oportunidades possam algum dia ser “Doutores”.
    E pena que alguns “Doutores” a nível de cidadania nem sequer sabem colocar o lixo nos contentores adequados, não cumprem as regras básicas de cidadania, atropelando muitas vezes os direitos dos outros cidadãos quer por ignorância quer por desprezo.
    Muitos deles não sabem fazer contas de dividir “umas contitas simples” como refere a autora deste artigo, e muitos deles nem a tabuada sabem.
    O uso do computador esta generalizado mas quantos saberão trabalhar no Excel ? Se calhar não lhes fazerem mal fazer alguma reciclagem nas Novas Oportunidades talvez aprendessem alguma coisa de útil, pois apesar dos “Doutores” que por ai se passeiam há muita ignorância a todos os níveis.
    A aprendizagem ao longo da vida e a experiência obtida também e sabedoria, e Senhora licenciada não se preocupe porque os formandos das Novas Oportunidades não pretendem ser “Doutores”.


  • Sem imagem de perfil

    Fernando Palma 17.05.2011

    Como um ex-formando do Programa das Novas Oportunidades, não pude ficar indiferente a esta absurda citação que foi publicada num artigo de opinião. A autora, sem conhecimento de causa, tem o dever e a obrigação de ser mais moderada nas opiniões que tece, pois se fosse totalmente conhecedora do Programa em si ( e que eu pessoalmente empreguei nele muitas horas e meses para o concluir !!), veria que o grau atingido não é o do secundário oficial, mas de uma equivalência a esse grau. Quando ouço e vejo certas opiniões sobre o assunto de forma depreciativa , fico chocado e triste pois constato um sentimento de clivagem sobre determinada camada da população que luta por um ideal de vida mais abrangente e quer queiramos quer não e em determinadas circunstancias, conseguimos verificar que continua a dar-se demasiada importância a currículos recheados de cursos, graduações e pós -graduações , que no final de contas não prepara a maioria dos nossos Doutores para o mercado de trabalho e conheço um bom numero deles que estão a laborar numa qualquer caixa de supermercado e que o fazem com profissionalismo, em igualdade com os outros colegas " menos habilitados"... Eu pessoalmente só quero o respeito que mereço pelo um objectivo que atingi, não querendo estar a "roubar" o lugar de ninguém, espero que os iluminados deste nosso país vejam a situação de forma diferente e sem juízos de valor antecipados...
  • Sem imagem de perfil

    Anónimo 01.10.2011

    meu caro amigo, não duvido das suas competências... pois também eu sou ex-formando. Mas diga-me sinceramente, dos seus colegas de curso, quantos o mereceram e se esforçaram para tal? Aposto que a resposta não me surpreenderia...
    Abraço.
  • Sem imagem de perfil

    Fernando Palma 04.10.2011

    Caro amigo anónimo, de facto encontro alguma razão nas suas palavras,no que respeita ao esforço dos formandos que acompanhei durante o período em que durou a formação. No entanto e a confirmar a sua tese aqueles que o finalizaram , foram aplicados e esforçados para atingirem os objectivos propostos. Mesmo nesta vertente de formação somente os que são trabalhadores e que apresentaram esforço e dedicação foram os que chegaram ao final, como qualquer outro aluno de um qualquer curso do ensino regular... Pelo menos no CNO, onde estive foi assim...
    Sinceros comprimentos
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

    Subscrever por e-mail

    A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

    Jamais - Advérbio. Nunca mais, outra vez não, epá eles querem voltar. Interjeição muito usada por um povo de dez milhões de habitantes de um certo cantinho europeu, orgulhoso do passado mas apreensivo com o futuro, hospitaleiro mas sem paciência para ser enganado, solidário mas sobrecarregado de impostos, com vontade de trabalhar e meio milhão de desempregados, empreendedor apesar do Estado que lhe leva metade da riqueza, face à perspectiva terrível de mais quatro anos de desgoverno socialista. Pronuncia-se à francesa, acompanhado ou não do vernáculo manguito.

    Arquivo

    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D