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Jamais

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25
Jul09

As Origens Ideológicas da Esquerda (da Democrática e da Outra)

Miguel Morgado

Há uma diferença que é muito mais do que um detalhe teórico, e que separa a esquerda (a democrática e a outra) de uma abordagem responsável - nos vários sentidos da palavra - à política. Há uns dias escrevi sobre o assunto a propósito de um manifesto que sugeri que se publicasse contra as declarações de Vítor Bento. Nessa posta propus que o dito manifesto fosse intitulado "O TRIUNFO DA VONTADE". Mas hoje o inspirador Simplex força-me a insistir no assunto. Irene Pimentel resolveu em boa hora prestar preciosos esclarecimentos sobre a Utopia, tanto sobre a obra que Tomás Morus assinou, como aquela vaga e sofrida referência que se faz quando não se tem grande ideia sobre o que se quer dizer. Diz a Irene Pimentel:

"A República utópica não está em nenhum lugar porque é perfeita e a perfeição não é realizável na terra, embora possa sê-lo, na ordem política, em resultado da vontade e da acção do homem. Por exemplo, a enorme diminuição da mortalidade infantil em Portugal desde o 25 de Abril era uma utopia, mas que (só) foi possibilitada pela democracia".

Por razões que compreenderão, escuso-me de comentar a pertinência da comparação entre a "República utópica"  e a "enorme diminuição da mortalidade infantil em Portugal". A natureza do comentário citado da Irene Pimentel esclarece também por que é que é inútil indicar que o diálogo sobre a ilha da Utopia na obra de Tomás Morus se inicia com interlocutores que têm fome, que ainda não almoçaram.

Mas vale a pena tentar perceber que a incompreensão da ideia de utopia tem necessariamente de afectar aquelas almas que, à superfície, mais dispostas estão a acolhê-la. Se, por um lado, neste cantinho do mundo que finge ser do Primeiro, mas convive mais confortavelmente com o Terceiro, que é Portugal, ainda tem de se aturar um ou outro "comentador" que se dirige à nação comunicando tolices como "a esquerda é dos ideais" e "a direita é dos interesses" ; por outro lado, o espalhanço da Irene Pimentel mostra que esta falsa abertura à utopia revela precisamente o seu contrário: uma obsessão com a omnipotência da vontade.

O que também revela é uma indisponibilidade mais ou menos consciente para pensar a política enquanto tal, porque a política torna-se nem mais nem menos num campo de laboratório das experiências da vontade; torna-se num objecto puro ao alcance da técnica que a "malta que sonha" queira aplicar. Os generosos "utopistas" metem um ideal na cabeça e depois preocupam-se em tornar o mundo numa superfície lisa que assuma a forma desejada sem reclamar, nem sangrar. Por vezes, o mundo não reclama, ou reclama em silêncio, quando lhe impõem o modelo que as emoções políticas resolvem ditar. Mas sangra sempre. Como a vontade é que conta, a sangria não entra nestas contas. A esquerda não compreende isto. Nem a esquerda totalitária nem a outra.

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Jamais - Advérbio. Nunca mais, outra vez não, epá eles querem voltar. Interjeição muito usada por um povo de dez milhões de habitantes de um certo cantinho europeu, orgulhoso do passado mas apreensivo com o futuro, hospitaleiro mas sem paciência para ser enganado, solidário mas sobrecarregado de impostos, com vontade de trabalhar e meio milhão de desempregados, empreendedor apesar do Estado que lhe leva metade da riqueza, face à perspectiva terrível de mais quatro anos de desgoverno socialista. Pronuncia-se à francesa, acompanhado ou não do vernáculo manguito.

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